quarta-feira, 26 de abril de 2017

Turismo com prisão em Punta Carretas
Nem tudo foram flores em minhas viagens pela América do Sul como enviado especial do Suplemento de Turismo do jornal O Estado  de São Paulo. Vivi um momento que só não se transformou em tragédia porque meu Anjo da Guarda estava de plantão. O episódio aconteceu em Montevidéu, capital do Uruguai, que  no período de 1973 a 1985 estava sob ditadura militar.
O atual e moderno shopping Punta Carretas, inaugurado na década de 90 e hoje um dos principais centros comerciais e turísticos da cidade, era uma prisão, construída em 1910. Na época, o prédio tinha quatro andares e 48 celas  e par lá iam presos comuns e políticos, como os Tupamaros, movimento de oposição à ditadura e que promovia constantes atentados terroristas.
 O ex-presidente José Mujica, que era um dos líderes do movimento, foi detido e passou quase 14 anos em uma das celas de Punta Carretas. 
Em 1971, houve uma fuga em massa do local, envolvendo 100 presos. A evasão foi por meio de um túnel de 44 metros e a ação, considerada uma das mais espetaculares, teve repercussão em todo o mundo, sendo registrada no livro Guiness. A maioria dos que conseguiram fugir era de Tupamaros e, entre eles, estava José Mujica.
 Pouco tempo depois, Mujica voltaria a ser preso e novamente fugiu, desta vez com outros 22 companheiros. E foi neste período delicado na vida política do país que este jornalista desembarcou na capital uruguaia a convite do Ministério do Turismo local .
 O objetivo era fazer uma reportagem mostrando os principais pontos turísticos de Montevidéu. Num carro com motorista, cedido pelo Ministério, percorri numerosos locais, parando para fotografar monumentos e prédios históricos da paisagem urbana, além da praia de Pocitos, a mais procurada pelos turistas que visitam a cidade.

Neste trabalho já havia utilizado vários filmes e, quando passamos por um quarteirão formado por largas vias, observei um grande prédio, com uma atraente fachada, cercado por gradis e jardins floridos. O motorista diminuiu a marcha e eu, pela janela aberta, comecei a fotografar.  
O detalhe é que o prédio era a prisão de Punta Carretas e, para meu infortúnio, atrás do nosso carro vinha um veículo e, no seu interior, uma autoridade da polícia uruguaia. Ouvi apitos e ordens de pararmos. E o carro foi cercado por guardas armados que apontaram até metralhadoras para o nosso veículo.
Aos gritos disseram que eu estava fazendo fotos do carro do chefe de polícia, mandaram que descessemos e nos levaram para uma sala na entrada da prisão. Depois de certo tempo e alguns telefonemas, fomos colocados em um camburão, ladeados por policiais, e  conduzidos para uma delegacia ou algo parecido para sermos interrogados.  
foto : Luiz Antonio Novaes
Mostrei a identidade e o passaporte, expliquei minha condição de jornalista convidado pelo Ministério do Turismo do Uruguai para divulgar o país no Brasil. O tempo todo tinha duas preocupações: ficar preso e ver meus filmes retirados da câmera e velados, destruindo todo o meu trabalho.
A autoridade checou minhas informações junto ao Ministério do Turismo e, para meu alívio, devolveu a câmera sem abri-la. Em seguida, pediu desculpas e justificou a nossa detenção por estarmos fotografando o prédio da  Punta Carretas, onde houvera fugas recentes de lideranças do movimento Tupamaros.

Enfim, como diz o ditado, cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Fui liberado com uma observação que até hoje me causa calafrios: "Vocês correram um risco sério, porque a gente está atirando primeiro e perguntando depois".
À noite, ainda tive ânimo para conhecer o lendário Estádio Centenário, palco de grandes conquistas da seleção do Uruguai. Havia um amistoso programado, entre o time uruguaio e o Chile. Foi uma partida fraca e nem me lembro do resultado. Na manhã seguinte, após uma boa noite de sono, retornei ao Brasil. São e salvo.     


terça-feira, 18 de abril de 2017


Moscou 80 – Frango no avião e barco da Globo à deriva na Olimpíada Inesquecível (final) 
Testemunhei, como repórter da Folha de S. Paulo, à uma das mais importantes e inesquecíveis conquistas olímpicas do Brasil: as duas medalhas de ouro, nas Classes Tornado e 479, ganhas pelo iatismo nacional. Só para lembrar, as únicas de ouro que a delegação brasileira trouxe de Moscou. Além de uma de bronze, com João Carlos de Oliveira (o João do Paulo), no atletismo, e outra obtida pelo revezamento 4x200 metros livre da natação masculina, com  Djan Madruga, Cyro Delgado, Marcus Mattioli e Jorge Fernandes.
arquivo Marcos Soares
Para mim o feito da vela teve um sabor muito especial, porque é uma das modalidades que mais medalhas deram ao Brasil e um dos esportes que eu acompanhava praticamente todos os fins de semana. Cobri, um sem número de vezes, para a Folha e Estadão (tive passagens na editoria de esportes de ambos) competições locais, nacionais e internacionais na represa de Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo. E fiz vários amigos, como Mário Buckup, de uma família de grande velejadores brasileiros, empresário e ainda em atividade.
Arquivo Alex Welter
E por isso, vibrei muito quando os experientes Alexandre Welter e Lars Bjorkstrom, de São Paulo, na Classe Tornado, e os jovens cariocas Marcos Pinto Rizzo Soares e Eduardo Penido, na Classe 470, ocuparam o lugar mais alto do pódio, ao som do hino nacional enquanto subia a bandeira brasileira. E ainda teve Cláudio Biekard, na Classe Finn, com um honroso quarto lugar.
Mas para chegar à bela e medieval Tallin, capital da Estônia, distante 1.000 km de Moscou, tive que convencer o rigoroso dispositivo de segurança dos organizadores dos Jogos de que meu trabalho de jornalista credenciado não se restringia às competições na capital soviética. Era imprescindível minha viagem a Tallin, ainda mais que o Brasil tinha reais chances de medalhas.
Finalmente liberado, o vôo demorou uma hora, mas teve passagens curiosas: nenhum dos outros passageiros pode entrar no avião antes de mim. No desembarque também. O que se repetiu na volta. Outro detalhe: sem serviço de bordo, o lanche era o que se tinha trazido para a bordo. Notei que muitos comiam frango com farofa, devorados sem o uso de talheres. No melhor estilo de Dom João VI.
Além de mim, alguns companheiros de imprensa tiveram razões de sobra para nunca se esquecer da competição de iatismo nas águas da baia de Tallin. Uma equipe da TV Globo, integrada pela jornalista Monika Leitão, o repórter cinematogáfico   Daniel Andrade, e dois assistentes, foi enviada para cobrir a chegada dos iatistas brasileiros.
Monika ficou em terra e os demais pegaram um barco para acompanhar a regata. Porém houve um problema com a lancha e a equipe ficou à deriva durante todo o dia e só foi resgatada à noite.
Do barco em que eu me encontrava com outros jornalistas,  vi todo o desespero da equipe da TV Globo. O trabalho de cobertura da entrega das medalhas só não foi totalmente perdido graças à solidariedade de profissionais de um outro veículo de imprensa do Brasil presente em Tallin.
Eu fui um dos que primeiro informaram ao pessoal de terra da Globo sobre o que havia ocorrido com o barco de sua equipe. Em Moscou, na Vila Olímpica, recebi o agradecimento pessoal do mestre Armando Nogueira (de saudosa memória) e que coordenava todo o trabalho da equipe de esportes da Globo nos Jogos.
No próximo post, foto e prisão em Punta Carreta

                

terça-feira, 11 de abril de 2017

Moscou 80 - Pin de Ouro na Olimpíada inesquecível (2)



Foto : Com Olimp Internacional
Quem diria que a troca de pins, um pequeno broche colorido, originalmente confeccionado em papelão e atualmente  feito de metal, lançado na edição dos Jogos de Atenas, em 1896, como forma de identificação, se transformaria, ao longo da história olímpica, em objeto de desejo, cobiçado por atletas, jornalistas, oficiais e dirigentes das delegações que participam do evento.

Reconhecido oficialmente como suvenir pelo Comitê Olímpico Internacional ( COI), nos Jogos de Inverno de Calgary, no Canadá, em 1988, o que antes era apenas um hábito de troca, evoluiu, virou uma febre e hoje é um verdadeiro comércio de compra e venda. E que cresce a cada quatro anos, tendo até colecionadores profissionais espalhados por todo o mundo. Eles se deslocam de seus países para a sede dos Jogos e retornam com as lapelas, agasalhos, blusas, bonés e chapéus repletos de pins. 

Todos que acompanharam a Rio 2016, por exemplo, se lembram que havia até uma área com estande da patrocinadora oficial, para estimular a troca e venda dos broches, que identificam  as modalidades disputadas na competição e as bandeiras dos países representados. Alguns são muito valiosos, como foi o caso do ursinho Misha, mascote da Olimpíada de Moscou, e que chegou a ser vendido por U$ 50.

Mas, o meu primeiro contato oficial com os pins foi em Moscou, na cobertura dos Jogos. Recebi uma certa quantidade do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e de algumas das várias modalidades que eu acompanhava no meu dia-a-dia em São Paulo, como repórter da Folha. Entre outros, possuia broches do iatismo e da natação, dados pelas respectivas Confederações, além do que reproduzia a imagem da bandeira do Brasil.

E foi exatamente por estar com um pin na lapela, reveladora de minha nacionalidade brasileira, além do inseparável e obrigatório cracha de jornalista, que não me perdi na capital soviética. O que seria uma tragédia, pois retornava de um evento num  Estádio Lenin abarrotado e precisava chegar o mais rápido possível ao Rosyia Hotel, pegar o transporte até o Centro de Imprensa, e escrever meus textos para serem enviados ao jornal. 

A pressa me fez desistir de procurar pelo transporte oficial da imprensa. Optei por caminhar, no meio da multidão, em busca de um táxi, que só podia pegar passageiros a uma certa distância do estádio. Tentativa inútil. Perdi tempo e, então, arrisquei um plano B e rezei para ter sorte. Entrei no primeiro ônibus que passou, letreiro em russo, claro, e me postei de pé no corredor repleto. Sob o olhar curioso dos conterrâneos do "camarada Brejnev" mostrei meu crachá para o que estava mais próximo de mim e disse a palavra mágica, que repetiria, a cada minuto, ao longo de todo o trajeto: Rosyia Hotel.

De nada adiantaria balbuciar algo em meu péssimo inglês e ouvir o troco em russo. Então, com muita mímica e sem deixar de repetir Rosyia Hotel, presentiei o "camarada" com um pin com a imagem da bandeira do Brasil. Ele sorriu e agradeceu com aceno de cabeça.

 A retribuição viria uns 20 minutos depois, mas que para mim pareceram uma eternidade: o ônibus havia chegado nas imediações do meu hotel e o bom samaritano soviético não só desembarcou comigo como, após andarmos uns poucos minutos, apontou para o gigantesco prédio, dizendo: Rosyia Hotel.

Nos despedimos com um abraço de gratidão. E meu eterno " spasiba." 

 No próximo e último post desta série, uma  equipe da TV Globo à deriva em Tallin.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Moscou-80 - Minha Olimpíada inesquecível (1)

“Spasiba”  e “Voda”, foram as únicas palavras do idioma russo (significam obrigado e água) que eu consegui gravar na memória e jamais esqueci. E também nunca me esquecerei do lugar em que me encontrava quando completei 42 anos (15 de julho). Em Moscou, às vésperas dos XXII jogos Olímpicos da era moderna, na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), hoje Rússia. Foi minha Olimpíada inesquecível.

Lá se foram 37 anos desde que, destacado pela editoria de Esportes da Folha de S. Paulo, e ao lado do chefe de reportagem Aroldo Chiorino (já falecido) e do repórter Edgar Alves (atualmente com uma coluna no jornal), realizei o que considero o mais impactante trabalho dos 59 anos de minha atividade jornalística.  

Foram 16 dias de trabalho intenso, iniciado uma semana antes da abertura dos Jogos, no dia 19 de julho, e concluído no dia 3 de  agosto de 1980, quando o mascote oficial dos Jogos, o ursinho Misha, impulsionado por balões coloridos, ganhou os céus do estádio Lenin, com 103 mil pessoas, se despedindo com uma lágrima a escorrer dos olhos. Quem não se lembra desta imagem que correu o mundo?

Com a ajuda do acervo da FSP, onde pincei informações do nosso trabalho, e mais o que guardo na minha memória e no arquivo pessoal, contarei fatos e curiosidades em que estive envolvido. Nada de me deter sobre a delicada situação política que o mundo vivia na época porque isso está registrado na história.

 Mas, só pelo dever de registrar: em represália à invasão soviética no Afeganistão, no final de 1979 o presidente dos EUA, Jimmy Carter, ordenou o boicote do seu país aos Jogos Olímpicos de Moscou, no ano seguinte. Foi seguido por 69 aliados, no mundo ocidental, o que reduziu a presença no evento a apenas 80 nações (a delegação da Libéria desistiu de competir após o desfile).

O Brasil, que não aderiu ao boicote, levou 109, um recorde, dos 5.159 atletas que desfilaram no Estádio Lenin.  A frente, o maior destaque, João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, recordista mundial do salto triplo. Maior esperança para a medalha de ouro, trouxe uma de bronze. O resultado final da prova gerou grande polêmica, pois o brasileiro teria obtido, em um dos seus seis saltos, marca superior à dos soviéticos Viktor Saneev, que ficou com a prata (tentava seu quarto ouro) e Jaak Uudmae, o surpreendente vencedor.  

Quatro anos depois, em Los Angeles, a URSS e seus aliados do bloco socialista deram o troco, boicotando a Olimpíada realizada em território norte-americano.

Não foi nada fácil o trabalho da imprensa em uma Moscou supervigiada. Tudo começava no desembarque no aeroporto de Sheremetievo, em que se abriam e inspecionavam  todas as malas e pertences em busca, desde literatura pornográfica, drogas e até armas. E prosseguia no gigantesco Rosyia Hotel, onde nos hospedamos e cujas janelas davam para a praça do Kremlin e o canal do rio Moscou, que passa pela capital soviética.

 Imaginem um hotel de 21 andares, com cerca de 6 mil leitos, num total de 3.200 quartos e 245 suítes, distribuídos por corredores quilométricos, que percorríamos diariamente até o elevador, para só então chegar à portaria. O hotel tinha poucas entradas e saídas para a rua. E sempre se entrava e saia pelo mesmo lugar. Ali passávamos por uma rigorosa revista, assim como nossas máquinas de escrever e câmeras. Para ir e voltar, é claro.

Cada jornalista, ao ser credenciado para cobrir as competições, recebia um crachá com sua foto, uma letra impressa em tamanho bem visível e um número no rodapé do documento, verso e reverso, além da assinatura e nome do Pais. A letra do meu crachá era “E” assim como a de todos os profissionais da mídia impressa, para diferenciar dos jornalistas de rádio e TV, sendo que alguns ficavam até em hotéis diferentes.

 O deslocamento até os locais de treinamento e das provas das 23 modalidades em disputa e para o principal Centro de Imprensa era feito de carro ou ônibus credenciados e que só podiam circular pelas vias olímpicas ou corredores construídos e reservados exclusivamente para este fim. Se você perdesse a hora, tinha que esperar pelo próximo transporte, pois não poderia usar serviço de táxi. Além disso, o transporte nos deixava a uma boa distância dos ginásios e estádios onde as competições eram realizadas. Caminhar era preciso.

No Centro de Imprensa, sem os avanços tecnológicos dos tempos atuais, redigíamos os textos nas máquinas mecânicas portáteis que levamos e as matérias eram enviadas via telex, pelo pessoal local.
Dois detalhes do nosso cotidiano: policiais, com cães farejadores, acompanhavam o trabalho da imprensa, para checar se havia alguma bomba ou droga no local, e o fuso horário tinha uma diferença de 6 horas entre Moscou e o Brasil. Ou seja, quando terminávamos o trabalho lá, aqui ainda eram 18 horas. Voltávamos ao Rosyia, passávamos de novo pelo demorado ritual da revista e com tempo suficiente apenas para um lanche, antes de dormir, pois já havia passado a hora do jantar.

Antes de entrar, pegávamos as chaves com uma funcionária uniformizada e de poucas palavras, que ficava de plantão desde a manhã e que tinha a função de guardá-las até o retorno dos hóspedes. Houve um jornalista que se queixou de que, ao voltar do trabalho, encontrou seus pertences remexidos. Acho que era norte-americano.... Não tive este problema. A única coisa que me incomodava era ser despertado às 6 horas, todos os dias, ouvindo, pelo som interno do quarto, o hino do País. E com a forte luminosidade do sol do verão.  

 Num regime fechado como o da época do presidente Leonid Brejnew, uma das preocupações , além da segurança das delegações, era com o mercado negro, a troca da moeda local, o rublo, pelo dólar dos turistas. Os cidadãos soviéticos aproveitavam qualquer chance que se apresentava, mesmo correndo risco de serem presos, para propor trocas vantajosas de rublos pelo dinheiro norte-americano. Só com o dólar eles poderiam comprar artigos importados vendidos aos turistas nas lojas dos magazines.

Também não tinham acesso aos convites para os eventos da programação social oferecidas aos jornalistas credenciados, antes da abertura da Olimpíada e à autoridades estrangeiras. Como uma apresentação da peça Romeu e Julieta, no famoso teatro Bolshoi, a que assistimos. Testemunhei muitos cidadãos locais oferecendo rublos por um convite para entrar no teatro. 

Da janela do meu quarto, certa noite, vi policiais se aproximarem rapidamente de um grupo de pessoas que, soube depois, estavam fazendo o câmbio negro de moedas. Foram detidos e retirados da Praça Vermelha. Esta prática era comum nos hotéis onde os jornalistas estavam hospedados.
Os garçons e outros funcionários vendiam também, em pequenas latinhas, o caviar, produto típico (e caro) da culinária do país, conhecido em todo o mundo. Eu não sou adepto desta iguaria, mas me lembro que trouxe algumas latinhas e as coloridas Matrioskas, do rico artesanato da Rússia. São bonecas de madeira, colocadas uma dentro da outra, quase sempre num total de dez. Minhas filhas as conservam até hoje. Quanto ao outro produto tradicional, a vodka, garanto que não trouxe nenhuma garrafa.


No próximo post, outro capítulo com curiosidades sobre minha Olimpíada inesquecível.   

sexta-feira, 31 de março de 2017

Monte Verde: físico usa símbolo do “amor eterno” em suas geléias

Diz a lenda, e esta talvez seja a mais conhecida delas, que jovens destemidos e apaixonados escalavam os alpes europeus da Áustria, Suíça, França, Itália e Iugoslávia, em altitudes acima de 1.700 metros, a procura da flor Edelweiss para presentear suas amadas. A espécie, só encontrada nestas regiões, é muito linda, tem a forma de estrela e seu nome significa “branco precioso”. De acordo com as várias histórias, esta flor misteriosa  se tornou o símbolo do “amor eterno”. Os que conseguiam trazer um buquê de Edelweiss provavam que eram valentes e merecedores do amor de sua amada. Não foram poucos os que não voltavam da arriscada aventura.

A Edelweiss é considerada flor símbolo nacional da Áustria e da Suiça e a preferida de alguns imperadores e imperatrizes. Como a inesquecível Sisi, da Áustria, protagonizada em filme por Romy Schneider, produzido em 1955 e que virou uma trilogia. E ficou ainda mais popular depois do musical “A Noviça Rebelde”, de 1959, estrelado por Julie Andrews.

Esta história é contada pelo Dr. Edmundo Garcia Agudo, com riqueza de detalhes e senso de humor, aos turistas e visitantes que vão conhecer sua fábrica de geleias instalada num amplo sítio, com árvores nativas e outra plantadas, na zona rural da Vila de Monte Verde. Ele é um espanhol de 76 anos e cabelos grisalhos, naturalizado brasileiro, aposentado, com PhD em Química Nuclear, Superintendente da CETESB em São Paulo, que serviu por 10 anos na ONU (na Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena, Áustria) e foi professor do Mackenzie e da USP.

E o que tem a ver tudo isso com uma das geleias mais saborosas e comercializadas em todo o País? A curiosidade leva à outra pergunta inevitável: como um profissional com essa experiência, se tornou um especialista na fabricação de geleias?

Muito atencioso com todos, bem falante, Edmundo não esconde que, pessoalmente, nunca foi um apreciador de geleias. “Eu sempre as achava muito doces, até mesmo enjoativas, e nunca o seu sabor lembrava a fruta mostrada no rótulo”.
 Mas ele admite que essa percepção mudou quando foi trabalhar na ONU. Em Viena, ele se admirou com a qualidade das geleias austríacas. Em conversa com seus vizinhos, descobriu os segredos de preparação para transformar a geleia em algo realmente excepcional, sem excesso de açúcar, mantendo todo o sabor, cor e textura das frutas.

Ao se mudar para o Brasil, deixou de lado suas atribuições como consultor técnico-científico em Meio Ambiente e Energia Nuclear, temas em que trabalhou por 45 anos. As atividades exigiam muitas viagens internacionais e desgaste físico, e ele priorizou a qualidade de vida e a convivência familiar.

Decidiu então morar neste sítio, próximo a Monte Verde, um distrito de Camanducaia (MG), e ali construiu sua pequena fábrica para elaborar suas geleias, na beira do Rio Jaguari. Na produção, além de observar todos os requisitos legais, como alvará de funcionamento da Prefeitura, segue rigorosamente as exigências da Vigilância Sanitária, até mesmo excedendo-as, em virtude de seus conhecimentos acadêmicos em química.

Com sua experiência, não foi difícil para Edmundo adaptar as receitas e os procedimentos aprendidos na Áustria para a incrível variedade de frutas e componentes disponíveis no Brasil. Atualmente, são produzidos 16 sabores de geleias, todas com receita própria e fabricadas pessoalmente.

foto Marcos Vaz
Para percorrer as salas totalmente brancas da fábrica, e ver as várias etapas de preparação de uma de suas geléias, os visitantes têm que por uma touca na cabeça e usar uma proteção envolvendo os sapatos. Ali, uma funcionária corta, com uma faca, e impressionante habilidade, as cascas das tangerinas importadas da Espanha que em seguida são colocadas em enorme panela para a sequência do processo de produção.
foto: Marcos Vaz

As visitas à sua fábrica devem ser agendadas porque ele gosta de saber o número de pessoas e o horário em que virão, para poder dar toda a atenção. Na varanda de sua confortável casa em frente á fábrica, os turistas são convidados a provar os sabores especiais como morango, com pedaços da fruta, caju, mirtilo (blueberry), maçã com canela, maçã com gengibre, physalis, damasco, framboesa, laranja, tangerina e amora, entre os destaques. Todas com sabores marcantes de suas frutas selecionadas e consistência cremosa, que fazem da degustação uma experiência inesquecível.

A excepcional geleia de pimenta vermelha, por exemplo, ideal para acompanhar queijos e carnes, é responsável por quase 30% do total da demanda. Outro sucesso, a geleia de morango, utiliza frutos selecionados produzidos no Sul de Minas. O resultado é uma geleia única, com calda grossa de cor rubi e pedaços de morango incorporados, característica não encontrada em qualquer outro produto do mercado.

foto Marcos Vaz
Em seu sitio, Edmundo faz questão de mostrar a plantação de framboesas e de physalis. A primeira, além de ser a matéria prima para sua famosa geleia de framboesa, é também usada na fabricação da Framboesada, um doce de corte similar à goiabada, elaborado com 100% de framboesa, ideal para comer com queijos. Produz, ainda, polpa congelada de framboesa, physalis e amora, sem sementes e sem conservantes, que abastece os melhores restaurantes de Monte Verde, que assim podem incluir suco natural das frutas em seus cardápios.

E finalmente, Edmundo explica porque colocou o nome de Edelweiss nos rótulos dos potes que são comercializados. “Nossas geleias são feitas de uma forma artesanal, mas com muito profissionalismo e, principalmente, muito amor, em todas as fases desde a compra de frutas de qualidade, sua preparação e a embalagem”. O nome Edelweiss está devidamente patenteado.
foto Marcos Vaz

foto MarcosVaz
Edmundo tem como parceira a esposa Isa, com mestrado em Toxicologia Ambiental na USP, e também aposentada. Ela faz artesanatos diversos em caixas de MDF, com muita originalidade e sutileza, comercializados na Loja Edelweiss Artesanato na Galeria Suíça, no centro de Monte Verde, onde podem ser degustadas todas as geléias.
 Geleias Edelweiss. Galeria Suíça 936 Lj. 3. (35) 3438-1513 e 3433-5508. www.geleiasedelweiss.com.br







segunda-feira, 27 de março de 2017

Olavo Setubal, austero, autêntico e empreendedor


 Ainda estão bem vivas na memória de todos as baixarias que marcaram, pelo Pais, as campanhas dos diferentes Partidos para a eleição do presidente da República e, também, a última, que escolheu os prefeitos e vereadores com mandato em andamento. Agressões verbais, ofensas pessoais pesadas, declarações deturpadas e mentiras deslavadas inundaram a mídia, os sites e, principalmente, as redes sociais.
Tudo isso não é novidade para ninguém. E o meu personagem deste post, o ex-prefeito Olavo Setubal, em cuja assessoria de imprensa tive o orgulho de trabalhar, já havia colocado o dedo na ferida há quase 40 anos. Em entrevista ao Estadão, em maio de 1988, ao justificar as razões para desistir de sua candidatura ao governo de São Paulo, após ter administrado a cidade de 1975 a 1979, ele dasabafou:
"Numa conjuntura política em que a característica é uma campanha extremamente agressiva, num cenário brasileiro onde calúnia e ataques pessoais são a regra, eu vi que não tinha condições de disputar um cargo efetivo sem que as organizações nas quais participo viessem a ser agredidas e prejudicadas. Não agüento mais debate, nem palestra, nem mesa redonda, nada. Não atendo a entrevistas. Só me dedico às coisas da minha vida porque não tenho objetivo nenhum de voltar. Não quero viver a vida pública mais."
As organizações às quais Setúbal estava se referindo eram algumas agências do Banco Itaú, que foram depredadas durante manifestações de sindicalistas em protesto contra aquisições feitas pela instituição financeira que ele fundou e dirigiu antes de ser prefeito.
Comparando com todas as Administrações a que servi, ao longo de 40 anos, a de Setubal foi a mais austera e eficiente. Não se destacou pela construção de obras de grande visibilidade, mas priorizou o  setor de serviços à população e deixou um expressivo legado para a Capital paulista.
Um vozeirão e uma gargalhada sonora, que ecoavam em qualquer ambiente onde se encontrava, eram dois de seus traços marcantes. Muito autêntico, era especialista em frases de efeito. Ao tomar posse no cargo de prefeito, em 1975, disparou uma das mais famosas: "Gerir São Paulo é a mesma coisa que gerir uma Suíça e uma Biafra ao mesmo tempo".
Nomeado para o cargo em 1975, pelo governador  Paulo Egydio Martins ( a escolha dos governantes era por via indireta), poucos acreditavam no sucesso do engenheiro Olavo Setubal. Afinal, nunca havia exercido um cargo na administração pública. Mas era reconhecido pelo empresariado pela grande capacidade empreendora e visão que o levaram a  fazer do Itaú o segundo maior banco privado do País, superado apenas pelo Bradesco.
 
Minhas funções na Secretaria de Imprensa, comandada pelo jornalista Lázaro Elias Severino, e sempre no período da manhã (à tarde eu trabalhava na Folha), era acompanhar o prefeito em seus compromissos externos e cobrir as atividades realizadas no Parque do Ibirapuera, sede da Prefeitura.

Assim, testemunhei seu estilo firme e decidido de lidar com os problemas trazidos ao seu gabinete pelos moradores. Eles vinham com vereadores ou deputados. Nos despachos que eu presenciava, Setubal mantinha o diálogo em alto nível, mas perdia a paciência quando alguém exagerava no tom. Aí ele justificava porque era chamado de Trovão pelos assessores e funcionários do gabinete: levantava-se, dava um murro na mesa e soltava sua voz forte, que ecoava pela ante-sala do gabinete e até no grande hall onde ficavam as recepcionistas. E a audiência estava encerrada.  

Outro hábito, a exemplo do que fazia como empresário: nunca deixava documentos amontoados sobre a mesa de trabalho ou guardados em gavetas. Alias, elas não tinham gavetas. Lia e assinava, sem perda de tempo, todos os documentos que lhe eram entregues. 

O problema das enchentes o preocupava. Mas ele não fazia promessas ou anunciava planos mágicos para acabar com elas, como ainda é praxe em todas as administrações que o sucederam. Preferia ser realista. Ao inspecionar obras de combate às inundações, na região do Tamanduateí, foi franco e afirmou que não haveria como resolver o problema antes do ano 2000. O Tamanduateí hoje está canalizado, como outros rios e córregos na cidade. Mudamos de século, mas São Paulo continua sofrendo com as enchentes, ano após ano, apesar dos pesados investimentos que são feitos em todas as administrações.

Ao final de seus quatro anos de gestão, conforme publicado pela imprensa na época, Setúbal tinha a aprovação da maioria da população. E do mundo político também. Ficou notória sua habilidade no relacionamento com os vereadores da Câmara Municipal, de maioria do MDB, embora ele fosse da ARENA: nunca teve um projeto vetado. Inclusive um dos mais polêmicos, o que distribuia as linhas de ônibus da cidade.  
Do legado que deixou para São Paulo, estão a abertura das avenidas Sumaré e Juscelino Kubitschek, a conclusão da reforma da Praça da Sé, interligando-a com a Praça Clovis Bevilaqua, a reurbanização da área central com a construção dos calçadões no centro velho e no novo, a desapropriação e restauração do Edifício Martinelli.
Criou ainda a EMURB, Empresa Municipal de Urbanização, atualmente Secretaria Municipal de Serviços e Obras,.inaugurou a segunda fase da linha Norte-Sul do Metrô e iniciou a da Leste-Oeste, transferiu o Metrô e a Comgás para o governo do Estado e unificou vários departamentos de trânsito em uma única secretaria, a de Vias Públicas.
De março de 1985 a fevereiro de 1986, no governo Sarney, foi ministro das Relações Exteriores, por indicação do então senador Tancredo Neves. Deixou o cargo para tentar concorrer ao Governo do Estado, mas não conseguiu ser indicado e voltou às suas atividades como empresário e banqueiro no Grupo Itaú.
Olavo Setúbal, o 39º prefeito de São Paulo, faleceu em 27 agosto de 2008, aos 85 anos.
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terça-feira, 21 de março de 2017

Kennedy, Pelé, Golpe , Jumbo da JAL e o futuro na Expo’ 70
No período de 1962 a 1966, trabalhei na sucursal paulista de O Globo, na Rua 24 de Maio. À noite, ia para a redação da Folha, para cumprir um convênio entre as duas empresas. 
Na sucursal de O Globo, entre outras funções, acompanhava numa cabine os noticiários das principais emissoras de rádio. E foi assim que ouvi a notícia que chocou o Mundo, em 22 de novembro de 1963: o assassinato do presidente Kennedy, em Dallas.
Em 1964, quando aconteceu o golpe militar de 31 de março, a redação e a administração da sucursal já ocupavam todo o 19º andar do Edifício Zarvos, na esquina da Av. São Luiz com a Rua da Consolação. O acordo com a Folha fora suspenso e reiniciado, agora, com o Estadão, com sede em frente à sucursal de O Globo, na esquina das Ruas Major Quedinho e Martins Fontes, no mesmo prédio do antigo Hotel Jaraguá.
foto O Globo
Um passagem marcante  na sucursal, onde também cuidava da área de esportes, foi a cobertura do primeiro casamento de Pelé, com Rosemary Cholby, na manhã de carnaval de 22 de fevereiro de 1966. Estava entre 0s jornalistas credenciados e as imagens dos ato religioso foram feitas pelo fotógrafo Wilson Duarte Marcelino,  na casa do jogador.
 Em 1966 entrei com uma ação trabalhista contra O Globo. Fui demitido em agosto de 1967, num momento difícil, já casado e um mês após o nascimento de minha primeira filha, Denise. Mas, em dezembro do mesmo ano, a convite de Luiz Carlos Mesquita, do clã dos Mesquitas, donos do jornal, fui contratado como repórter do Suplemento de Turismo do Estadão.
Pelo Suplemento, conheci um pouco deste mundo velho, como enviado especial ou a convite. Além dos textos, fazia as fotos. A circulação do caderno era semanal, como até hoje, mas a edição em preto e branco, com oito páginas e no tamanho padrão do jornal.
 A primeira viagem ao Exterior, em 10 de outubro de 1969,  a gente nunca esquece. Foi para Nova York, a Big Apple. Na capa do Suplemento, uma das mais criativas até hoje, sob o título “Um tostão na terra do dólar”, imagens da cidade e uma charge em que eu apareço num selinho, com uma trouxinha de caipira nas costas. Nas páginas internas,a maioria  feitas por mim, mais de 30 imagens de diferentes pontos da ilha de Manhattan, como o Central Park, e de outros bairros, acompanhadas por novos selinhos e placas de sinalização e informação como  “Dont Walk” e “One Way”.
Outro fato inesquecível para mim e todos os brasileiros em 1970: a conquista da Copa do Mundo, no México. Eu estava em Nova York, a trabalho, quando soube que o Brasil havia vencido o English Team por  1 a 0, gol de Jairzinho. O restante da vitoriosa campanha eu vi por aqui, na primeira transmissão pela TV no Brasil.
Ainda em 1970, a convite da Japan Airlines (JAL), estive num vôo de apresentação para a imprensa  do 747, chamado de Jumbo Jet pelo seu tamanho gigantesco. Acabava de ser adquirido e foi um marco da aviação mundial na época. A versão tinha capacidade para mais de 400 pessoas. Fizemos um vôo de treinamento nos céus da cidade de Sacramento, na Califórnia, na costa oeste dos EUA.  Antes da decolagem, todos os jornalistas assinaram um termo de responsabilidade.   Mas o treinamento não teve qualquer problema, todas as manobras de pouso seguidas de arremetidas foram seguras. Só  um pouco de frio na barriga e dores no pescoço  por causa das curvas para a esquerda e para a direita que a aeronave fazia..
Voltaria a me encontrar, desta vez de forma mais confortável, com o espaçoso Jumbo da Japan Airlines, também em 1970, integrando um grupo de jornalistas, dos principais órgãos de comunicação do País, especializados em  turismo. A empresa aérea e a Associação do Turismo Japonês, com escritório em São Paulo, levaram os jornalistas para visitar a Expo’70, na cidade de Osaka. Além de promover, como destinos turísticos, outros centros importantes, como a capital, Tóquio, Kyoto ( ex-capital imperial), Nikko, Nara e Hakone, incluídas no roteiro da viagem. O primeiro modelo do Trem Bala, o Shinkansen, já corria pelos trilhos da fantástica rede ferroviária japonesa.
 A Expo’70, cujo tema foi “Progresso e Harmonia para a Humanidade”, mostrou, de março a outubro, em pavilhões de 76 países, os avanços que o Japão e o resto Mundo já produziam em todos os campos. E antecipou um pouco do que a ciência e a tecnologia proporcionariam para a humanidade no futuro e que hoje estamos vivenciando, inclusive no Brasil, que esteve representado.
Não poderia esquecer neste post que, a partir de 1968 o Estadão começou a ser censurado pelo regime militar. No período de 1970 a 1974,  tinha a presença permanente de oficiais na sua redação e também na do Jornal da Tarde.  À época, os leitores se habituaram a ver os textos censurados serem substituídos por versos de “Os Lusíadas”, de Camões e por receitas de bolos e doces, nas páginas dos dois veículos. Quando o Estadão comemorava seu centenário de fundação, em 4 de janeiro de 1975, a censura foi suspensa.
Mas, antes houve um atentado a bomba, jogada contra o hall de entrada do prédio. Foi de madrugada, a redação estava vazia e a edição do dia seguinte sendo impressa pelas máquinas instaladas na parte de trás do térreo, com vista para as Ruas Martins Fontes e da C0nsolação . Só o funcionário, seu Mário,  sentado junto à sua mesa, teve ferimentos provocados pelos estilhaços dos vidros das grandes janelas do hall.
A partir de 1973, mudanças na direção do Suplemento e fui para a reportagem Geral e, em seguida, para a editoria de Esportes. O Estadão se transferiu para o atual prédio na Av. Caetano Alvares,  bairro do Limão, em 12 de junho de 1976. A empresa passava por uma grave crise financeira, resultado dos empréstimos bancários para a construção da nova sede. E, como sempre acontece nestas situações, sobrou principalmente para a redação.
E assim, com mais 10 anos na bagagem, em 7 de junho de 1977, sem justa causa, deixei o Estadão. A família estava aumentada com a chegada da segunda filha, Patrícia, em 1971, mas a  situação financeira era bem menos preocupante do que em 1967. Menos de duas semanas depois, fui contratado como repórter da Folha da Tarde, da Empresa Folha da Manhã.

E aí iniciei uma nova experiência ma minha atividade jornalística, pois desde o dia 18 de fevereiro estava integrando a Assessoria de Imprensa do prefeito Olavo Setubal, a convite do jornalista Lázaro Elias Severino, seu Secretário de Imprensa. Comecei então a conviver com os dois lados do balcão. 
Histórias deste longo período serão contadas a partir do próximo  post. Aguardem e me acompanhem.
#jumbojet #expo'70 #censura #regimemilitar

quinta-feira, 16 de março de 2017

Banco, Folha de S. Paulo e O Globo

A meta fora traçada em Uberaba bem antes do baile de formatura: ir para São Paulo e iniciar minha carreira de jornalista na imprensa local. Já havia a rivalidade entre o Estado de S. Paulo, da família Mesquita, e a Folha de S.Paulo, da Empresa Folha da Manhã, que tinha outros dois títulos: Folha da Tarde e Folha da Noite. Até 1962, a empresa era comandada  por Caio de Alcântara Machado e depois pelos empresários Carlos Caldeira Filho e Octavio Frias de Oliveira, este proprietário de granja e da rodoviária na Praça Júlio Prestes. A família Frias, por meio de seus herdeiros, continua á frente do Grupo Folha até hoje.

No campo esportivo, domínio absoluto de  A Gazeta Esportiva, de Carlos Joel Nelli, criador da São Silvestre. Na redação, entre outros, a presença marcante de Thomaz Mazzoni, o Olimpicus, uma espécie de “papa” da crônica esportiva. A tradicional prova , que terminava na entrada do Ano Novo, hoje é disputada durante o dia, vista pela TV por todo o País e por milhares de pessoas nas ruas do percurso, na região central da cidade.

O emprego  na matriz do Banco Commercio e Indústria (Comind), do banqueiro Theodoro Quartim Barbosa, na Rua XV de Novembro, hoje sede da BOVESPA, me garantiu o salário para morar na pensão de Dona Maria dos Prazeres, uma senhora portuguesa que alugava quartos em sua velha, mas bem conservada casa na rua Canuto do Val,  em Santa Cecília.

A localização se mostrou estratégica: perto do prédio da Folha de S.Paulo, na Rua Barão de Limeira, com sua fachada, interiores, garagem e oficinas de pastilhas coloridas, onde consegui um emprego em caráter experimental, como repórter de Geral. 

Guardadas as devidas proporções, a São Paulo de 1961 ainda não tinha tanta violência no seu cotidiano urbano. E o trânsito, com as últimas linhas de bonde ainda circulando, não era o sufoco de hoje. Assim, e até para economizar, eu gastava a sola do sapato da pensão até o banco e, à noite, em trajeto mais curto, entre a Canuto do Val e a redação da Folha.


Havia um problema: as inundações que desde aquela época traziam o caos e transformavam toda a parte baixa da região do Largo do Arouche, meu caminho obrigatório, num rio. Quando isso acontecia, de terno e gravata, guarda-chuva e sapatos nas mãos, eu atravessava com a água nos joelhos para chegar à pensão, mudar de roupa, jantar e ir para o jornal, de onde só saia perto da meia-noite.  

Meu aprendizado prático de três anos no modesto Correio Católico, em Uberaba, apesar do abismo tecnológico com a Folha de S.Paulo, evitou que  caísse em alguns dos trotes que costumavam preparar para jovens e recém-chegados “focas” como eu.

As coisas transcorriam muito bem até que em 1º de dezembro explodiu uma greve dos jornalistas, por melhores salários. Apesar de vitoriosa, houve demissões, incluindo quem não tinha vínculo empregatício na empresa e cujo pagamento era feito por meio de vale.Terminou ali minha primeira passagem pela Folha.

Meu relacionamento com companheiros de outros jornais me levou para a sucursal paulista de O Globo, na Rua 24 de Maio. Foi meu primeiro contrato de carteira assinada em um grande jornal. Deixei meu emprego no Banco, em 1963, para trabalhar  “full-time”, ou seja, 10 horas por dia no jornal da família Marinho. Começava uma nova etapa da minha atividade jornalística em São Paulo.


Meu primeiro trabalho como assessor de imprensa foi na Administração Olavo Setubal... mas isso fica para o próximo post...   

#folhadespaulo#jornalismo#correiocatolico"uberaba