sábado, 5 de setembro de 2026

👑 Até que enfim, a Cripta imperial é reaberta

      
Monumento com a pira.(Hélio Rubiales/YT) Vista do Museu no Parque (Orlando de Almeida/ AP) Vista Interior da Cripta (Hélio Rubiales/YT)
       

    Depois de quatro anos da reinauguração do Museu do Ipiranga, finalmente, neste feriado de 7 de Setembro, os moradores da cidade e, principalmente , os turistas que vêm a São Paulo para conhecer o seu rico e diversificado patrimônio histórico e cultural, ganharão o tão esperado presente com a reabertura da Cripta Imperial  no Monumento.

    O Museu Paulista e o Parque, com suas fontes e paisagismo, foram recuperados e entregues nas comemorações do bicentenário da Independência, em 2022..Na Cripta, que tem três níveis, estão os restos mortais do Imperador Dom Pedro I (em 1972) e de suas esposas, as imperatrizes Dona Leopoldina de Habsburgo (em 1954) e Dona Amélia de Leuchtenberg (em1984).

    Com a reforma, concluída no final de agosto, o interior do Monumento conta com novos sanitários, rampas acessíveis e uma plataforma elevatória até o nível da Cripta, onde se encontram os despojos de D. Pedro, Da. Leopoldina e Da. Amélia. Houve o restauro dos objetos em bronze localizados juntos aos sarcófagos; fechamento do teto da Cripta em mármore amarelo; nova expografia; climatização com a instalação de novos aparelhos de ar condicionado; iluminação integrada, além da resolução de problemas de infiltração.


Primeiro foi Cenotáfio

   Os registros históricos revelam que em 1951 houve a necessidade de se encontrar um local para abrigar os despojos do Imperador e das duas Imperatrizes. E como o Monumento era oco por baixo foi considerado ideal para a construção de um Cenotáfio (palavra grega que significa túmulo vazio). Concluído em setembro de 1953, o espaço recebeu primeiro os restos mortais da Imperatriz Leopoldina, em 12 de outubro de 1954. Eles estavam no Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro. Por um decreto, o então prefeito Adhemar de Barros denominou o Cenotáfio de Capela Imperial em 19 de outubro de 1959. 

Capela Imperial da Cripta - Divulgação: Cultura

Sarcófago Maria Leopoldina -Divulgação: Cultura

Sarcófago Dona Amélia - Divulgação: Cultura


                  

             O traslado dos despojos de D. Pedro l só foi  feito em 1972, nas comemorações do sesquicentenário (150 anos) da Independência. Antes de ser finalmente depositado no sarcófago da Cripta Imperial em 1976, o caixão com seus despojos percorreu vários Estados para cerimônias cívicas e religiosas. Entretanto, o coração permaneceu na cidade do Porto, em Portugal, atendendo a seu pedido antes da morte. Mas foi trazido ao Brasil nos festejos do bicentenário e posteriormente voltou para o local de origem, a Igreja da Lapa, no Porto.             Uma curiosidade: de acordo com os registros do Departamento dos Museus Municipais, da Secretaria Municipal da Cultura, o despojos de Dom Pedro e de Dona Leopoldina permaneceram expostos por um período num espaço do Museu porque os sarcófagos de granito construídos na Cripta para receber as ossadas eram menores do que os respectivos ataúdes.

Coração voltou para a cidade do Porto (Crédito: Irmandade da Lapa)

        Em 1984, o ataúde com os restos mortais de Dona Amélia, que também estavam em Portugal, foram transladados para a Cripta. Em 2012, houve uma exumação de todos e se revelou que  maior parte do corpo mumificado de Dona Amélia estava em ótimo estado de conservação. Após a exumação, foram devolvidos à Cripta Imperial.

A Cripta em detalhes


     
  
  
            Depois de sua reabertura, os visitantes acessarão o interior do Monumento pela escada lateral do lado direito do conjunto escultórico. E dentro poderão admirar a beleza e a riqueza das instalações, onde chamam a atenção suas paredes revestidas de granito verde escuro trazido de Ubatuba.         O altar localizado no fundo da capela e ladeado por dois castiçais prateados, tem um crucifixo negro e dourado. Mais ao alto, na parede, em bronze, o brasão do Império.          Do lado direito, um nicho com o sarcófago de Dona Leopoldina, de granito-verde-escuro que se apoia sobre quatro dragões estilizados de bronze. Na tampa do sarcófago há uma réplica da coroa imperial sobre almofada de bronze, e na face lateral os escudos dos Habsburgos e do Brasil Império com a inscrição do nome e dos títulos da Imperatriz.          Em outro nicho, este do lado esquerdo, o sarcófago com os despojos de Dom Pedro I, que tem o mesmo modelo do da Imperatriz, com os escudos dos Bragança e Brasil Império, onde se veem o nome e os títulos do Imperador. Sobre a tampa do sarcófago  os fac-símiles da primeira Constituição Brasileira de 1824, e réplicas da espada do Imperador e sua Coroa, em bronze, trabalho feito no Liceu de Artes e Ofícios. Na parede ao fundo, próximo aos nichos, estão as esferas que evocam o ciclo dos descobrimentos marítimos dos portugueses.  (A descrição, com riqueza de detalhes, do interior da Cripta Imperial consta de texto do professor Eduardo de J.M. do Nascimento, então diretor Divisão de Museus e foi publicada pela Revista do Arquivo Municipal) .
Programação

    A cerimônia de reabertura da Cripta Imperial da Independência do Brasil será às 14h30, seguida de apresentação do Ensemble FTM, grupo musical da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, às 15h, e visitação guiada  até às 17h.   A Cripta Imperial, assim como a Casa do Grito, localizada no Parque da Independência, são parte do Museu da Cidade de São Paulo, conjunto de locais históricos construídos entre os séculos 17 e 20. Com o evento no dia 7 de setembro, o Museu inaugura a exposição “Representações da Nação: O Monumento à Independência e a Cripta Imperial”, com curadoria de Marly Rodrigues, na Cripta.


    A mostra apresenta o momento da criação do Monumento e da Cripta e explica o motivo de serem construídos para reforçar e valorizar acontecimentos históricos. Na Casa do Grito há outra exposição, a “Da Independência ao Grito: história de uma casa de pau a pique”, que mostra a relação da casa com o quadro “Independência ou Morte” e a técnica de construção pau a pique. Ambas podem ser visitadas de terça a domingo, das 9h às 17h.
   Ensemble FTM é um quarteto formado por Marcos Kiehl na flauta, Alex Ximenes no Violino, Teco Nicolai também no Violino, e Sandro Francischetti no Cello. O repertório da banda passa da música do período Barroco até ritmos populares e contemporâneos, como o samba, o rock e o baião.
 Serviço
Exposição na Cripta Imperial: Representações da Nação: O Monumento à Independência e a Cripta Imperial
Local: Cripta Imperial/Museu da Cidade de São Paulo Praça do Monumento (Parque da Independência), s/nº - Ipiranga, São PauloTipo: Mostra de Longa duraçãoHorário: Terça a domingo, das 9h às 17h.
Exposição na Casa do Grito: Da independência ao Grito: história de uma casa de pau a piqueSinopse: A exposição enfoca o resultado de pesquisa arqueológica realizada na década de 1980. O objetivo é valorizar a Casa do Grito como patrimônio histórico, e ao mesmo tempo relata a história da casa de pau a pique erguida na segunda metade do século 19 e que se constitui num dos últimos exemplares desse tipo de construção na cidade.
Local: Casa do Grito/Museu da Cidade de São Paulo Praça do Monumento (Parque da Independência), s/nº - Ipiranga, São PauloTipo: Mostra de Longa duraçãoHorário: Terça a domingo, das 9h às 17h.
Atividades Educativas e Mediação Cultural
   A Casa do Grito conta com visitas agendadas para instituições diversas, dentre elas de ensino formal e informal. Feita por educadores, a partir de dispositivos de mediação, as visitas duram cerca de 1h a 1h30 e preveem um percurso pela história do imóvel e da exposição em cartaz. Para visitantes espontâneos é possível fazer uma visita com educadores às 10h e às 15h, estes sem necessidade de agendamento.Também há a possibilidade de fazer visitas educativas na Cripta Imperial.É necessário realizar agendamento pelo e-mail:educativomuseudacidade@gmail.com


 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Olimpíadas da Pandemia

 Olimpíadas 2020-2021

Estádio Olímpico de Tóquio construído em 2019 e que não terá público.

Símbolo Olímpico dos Jogos

Miraitowa - mascote da Olimpíada de Toquio 2021

    





Japão, de máscara, com silêncio e medo

As Olimpíadas de Tóquio, XXXII da Era Moderna, transferidas de 2020 (por causa da pandemia mundial) para 2021 e cuja abertura é amanhã (23), às 8hs de Brasília, serão definitivamente marcadas pelo Coronavirus que já ceifou mais de 4 milhões de vidas em todo o Planeta. E pela primeira vez na história dos Jogos, desde sua instituição na Grécia em 1896, não terá a presença de estrangeiros para acompanhar as competições nas arenas olímpicas. Desde dezembro, visitantes estão proibidos de entrar no Japão. E não mais do que 10 mil residentes locais, em cada arena, estão autorizados a assistir às competições, mas apenas as disputadas fora de Tóquio e sua região. Usarão máscaras, manterão distanciamento e só se manifestarão por meio de aplausos. Não poderão gritar, falar alto, nem levar comida e bebida aos locais.

O Imperador Naruhito fará a declaração oficial de abertura. E o desfile das delegações, de mais de 200 países, um dos pontos altos da cerimônia no Estádio Olímpico, construído em 2019, chamará mais a atenção pela ausência de público. Além do reduzido número de atletas: apenas 2 por país, um homem e uma mulher. De máscara e sem aquela confraternização no gramado após o desfile. Todos os juramentos serão feitos por duplas. 

Ainda não se sabe qual o personagem, normalmente um atleta,  entrará no estádio conduzindo a Tocha Olímpica que percorreu o país em um rodízio repleto de sobressaltos. E nem se o acendimento da pira, que arderá até o encerramento dos Jogos, será manual, como foi em 1964, ou utilizará algum recurso tecnológico de impacto visto em outras edições desde Los Angeles 84. 

A abertura deverá ser sóbria e o tema escolhido é "Unidos pela Emoção". A propósito, o compositor japonês Keigo Oyamada, autor de uma das músicas do tema, renunciou nesta segunda-feira (19) depois de admitir a prática de "bullying" agressivo contra portadores de deficiência, seus colegas de classe, nos anos 90. O caso vinha sendo publicado em jornais e revistas do país nos últimos dias. A última baixa foi a demissão, hoje (22) do diretor da cerimônia de abertura, Kentaro Kobaiashi, por ter feito, em 1998,  uma piada com o Holocausto dos judeus.

Até o apagar da chama olímpica, o medo da contaminação pelo vírus será uma ameaça constante. Para atletas, dirigentes, jornalistas e a população, mesmo cumprindo as rigorosas medidas de restrição impostas pelo Governo Japonês, o Comitê Organizador e o COI. Entre elas, testes diários para todos e o isolamento imediato de quem apresentar resultado positivo. No caso dos atletas, a desobediência  obrigará o infrator a deixar o Japão.

Com certeza estas Olimpíadas ficarão na história mais pelo que não aconteceu e menos pelo protagonismo dos atletas, suas grandes vitórias,  recordes e decepções nos 33 esportes em disputa. Ou por conta dos equipamentos de ultima geração já anunciados. Os pódios estarão vazios. Levadas em bandejas, caberá aos próprios atletas colocar as medalhas, de material metálico reciclável, nos próprios pescoços. Fato inédito e impactante.

Desde que foram adiadas para 2021, constatou-se que uma boa parte da população japonesa, ouvida em pesquisas, foi e é  contra a sua realização devido ao elevado número de casos e de óbitos pela Covid 19 no país. E que continua ameaçando de colapso o sistema de saúde em Tóquio, Osaka e outras cidades. O principal  jornal do Japão, Asahi Shimbum, um dos patrocinadores das Olimpíadas, chegou a publicar um duro editorial pedindo o cancelamento ou novo adiamento dos Jogos. E nas últimas horas, outro patrocinador, a Toyota, anunciou  que não mais vinculará ações relacionadas ao  evento em solidariedade ao povo.

Apesar disso, sob a argumentação de que foram implementadas rigorosas medidas preventivas para proteger e garantir a saúde dos mais de 11 mil atletas (302 do Brasil) que competirão e dos residentes no país, incluindo  a aceleração do processo de vacinação, a decisão de realizar o evento foi mantida. Pesou também o impacto econômico: o cancelamento das Olimpíadas mais caras da história, e das Paraolimpíadas, em seguida, custariam ao Japão cerca de 16,6 bilhões de dólares.

As Olimpíadas se estenderão até o dia 4 de agosto e é imprevisível que tudo aconteça com pompa e circunstância do começo ao fim, diante de tantos desafios e até fenômenos naturais como a possibilidade de um tufão. Desde o domingo, mais de 80  casos de contaminação pelo vírus foram confirmados, incluindo prestadores de serviços, jornalistas e quatro atletas na Vila Olímpica. E ontem a Guiné, que teria cinco representantes, desistiu, juntando-se à Coreia do Norte e Samoa. O certo mesmo é que as medalhas conquistadas não terão o mesmo brilho do ouro, prata e bronze das Olimpíadas de Tóquio de 1964. E estes Jogos também não deixarão o importante legado daqueles, os primeiros realizados na Ásia há 57 anos e num país em reconstrução.

Abertos pelo Imperador Hirohito, os Jogos de 64 tiveram a participação de 5.151 atletas de 93 nações. O momento mais emblemático  foi a entrada no estádio do jovem Yoshinori Sakai, de 19 anos, conduzindo a tocha olímpica. Ele nasceu em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, quando a bomba atômica foi detonada sobre a cidade. Morreu aos 69 anos, em 2014, em Tóquio e era jornalista.

Yoshinori Sakai conduzindo a tocha olímpica em 1964

A escolha foi uma homenagem às vítimas do holocausto nuclear e um apelo à paz no Mundo. O mesmo Mundo, que por causa da pandemia da Covid 19 terá que se contentar em ver as  Olimpíadas  pela TV e Internet.  

                                                                        

Misha se despede em lágrimas em 1980

 


 

 

 

 

 

 

 

 

  

Para mim, passados 41 anos, o que jamais se apagarão são as imagens do ursinho Misha, mascote oficial dos Jogos se Moscou 80, impulsionado aos céus por balões coloridos acenando e em lágrimas. Um momento mágico que acompanhei da tribuna de imprensa do Estádio Lênin como enviado especial da Folha de São Paulo.